Durante os próximos dois meses traremos a história de alguns professores do Pioneiro que encararam o desafio de embarcar em uma máquina do tempo e nos contar como eram suas vidas quando tinham a idade dos alunos que dão aula hoje. Nessa viagem ao passado, tiveram de recorrer aos pais, aos registros dos amigos e até aos antigos álbuns de fotos, na tentativa de resgatar as memórias. Eles se divertiram e se emocionaram – e agora dividem com a gente um pouco dos momentos que ajudaram a formar quem eles são hoje. A seguir, o relato da professora Débora Freitas, de volta ao ano de 1990, o segundo texto da série “Como eu era quando eu tinha a sua idade…”

15.05.2018_debora_freitas

Meu nome é Débora Freitas e eu tenho três anos. Eu sou a 10ª filha do meu pai e da minha mãe. Não, você não leu errado! Antes de mim vieram o José Miguel, o Romilson, o Reginaldo, o José Regino, a Maria da Piedade, o Davi, a Maria do Socorro, o Ronildo e o Genessi. E depois de mim ainda teve o Israel e a Raquel. Ufa….

Eu moro numa cidadezinha chamada Brasilândia de Minas em uma casa pequena para esse tantão de gente. Minha casa tem tijolos, madeira e um cheirinho de café delicioso que não sai de lá até na hora da janta. 

Diversão é o que não falta por aqui. Eu brinco de correr, de pegar, de esconder e de jogar bola (já machuquei quase todos os dedos dos pés). Só não brinco de brinquedo de loja, desses que a gente vê na TV, porque eles não chegam até aqui.

O que eu mais gosto mesmo é de observar os desenhos de nuvem no céu com meu irmão mais novo e ficar debaixo das árvores comendo as frutas do pé. A gente ama manga e seriguela – e nunca na vida a gente recusou uma ambrosia, um doce à base de leite que a mamãe faz.

Eu como que nem gente grande, mas sou magrinha. É que eu gasto tanta energia que não dou conta de comer o mesmo tanto. Talvez eu seja magra de teimosa… O pessoal diz que sou teimosa demais, mas eu não sei muito bem o motivo. Será por que demoro pra achar o caminho de casa quando me chamam?

 Ainda não vou pra escola, mas de vez em quando vou na praça da cidade onde fica a igreja. A gente se arruma todinho e vai bem lindo e cheiroso. Eu não ligo nada pra roupa que está em mim, mas sei que ela já teve uma dona antes, ou até duas, e às vezes já vem com um furinho. Quem vem por último fica na fila.

 Tem muita coisa boa de viver sempre rodeada de gente. Uma delas é que eu nunca tive medo de escuro. Pensa bem, como eu vou ter medo se eu nunca estou sozinha? Não sei quantos dormem no meu quarto, acho que cada dia é um tanto diferente, mas sempre tem pelo menos meia dúzia de crianças rindo por lá.

 Perto de casa também tem bastante natureza e eu gosto de entrar no riacho e tomar banho de cachoeira gelada. Sempre que eu vou pra lá acontece a mesma coisa: eu perco um dos chinelos no rio e volto pra casa com um pé descalço.

 Sou risonha, mas muito tímida. Às vezes me escondo atrás do meu pai quando alguém tenta falar comigo. Também costumo cobrir meu rosto com o braço para não ser vista. Mas adoro ver o céu escurecer e ficar todo estrelado antes de cair no sono nos braços do papai. Sou tão apegada a ele que acabei ganhando o apelido de ‘chuchuzinho’. Mas eu não gosto de ser chamada assim porque chuchu não tem muito gosto. Mas sabe… Eu como mesmo assim.

Débora Freitas tem 30 anos, trabalha há cinco anos no PIO e dá aula para o Infantil I. Está grávida de sua primeira filha, Estela, e leva a vida com muito bom humor. Já encarou muitos desafios até se tornar professora. Nas horas vagas gosta de escrever poemas e pintar quadros com tinta a óleo.

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Eu e minha turma de lindezas!