De São Paulo a La Serena: um dia inteiro em aeroportos e aviões

Saímos de São Paulo preocupados com o frio do alto da cordilheira dos Andes. O nosso objetivo era visitar o telescópio SOAR (Southern Astrophysical Research Telescope), situado a 2750 m, na montanha Cerro Pachón, em La Serena, na região do Atacama/Chile.

A visita ao SOAR fazia parte da premiação que Camila Kunitake e Yasmin Paulino, alunas do 2º ano do Ensino Médio do Centro Educacional Pioneiro, receberam pela vitória no Concurso de Astronomia-2015, promovido, anualmente, pelo LNA (Laboratório Nacional de Astrofísica) e OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia). O concurso propunha a escolha de um objeto astronômico e a elaboração de uma dissertação – em dupla ou individualmente – destacando os aspectos físicos, químicos, estéticos e a importância para pesquisa astronômica e astrofísica. Dois alunos, Leonardo Nishioka e Rodrigo Rizzo, do 3º ano, obtiveram, ainda, o 2º lugar. Pelo 1º lugar, além da visita ao SOAR, a escola será contemplada com uma fotografia, a ser feita pelo “espectrógrafo óptico Goodman”, do SOAR, da galáxia NGC 1187, em tamanho 50 cm x 50 cm, escolhida pelas vencedoras, como tema da redação. Receberemos, ainda, a visita de um pesquisador do LNA para uma palestra na escola.

Yasmin, professor Oscar, Camila e professor João

Yasmin, professor Oscar, Camila e professor João

No dia 25 de maio de 2016, uma segunda-feira, encontramos-nos bem cedo no aeroporto de Guarulhos. Camila, Yasmin, professor Oscar Kudo (responsável pela aplicação do concurso e pela orientação das alunas na elaboração da redação) e o professor João Canalle, um dos coordenadores do concurso. Decolamos em direção a Santiago e, de lá, pegamos outro avião até La Serena, onde chegamos por volta das 19h30.

No dia seguinte, logo de manhã, seguimos para o escritório do SOAR para nos encontrarmos com David SanMartim e Bruno Quint, dois pesquisadores brasileiros, que nos explicaram o tipo de trabalho que fazem por lá e como chegaríamos até o telescópio.

Bruno Quint e David SanMartim

Bruno Quint e David SanMartim

Cerro Pachón: o caminho das estrelas

Foi o Bruno Quint quem nos levou até o SOAR. Com uma camionete, tração nas quatro rodas, seguimos rumo às montanhas. De La Serena podíamos avistar, ao longe, a imensa cordilheira. A estrada, inicialmente asfaltada, cortava todo o vale onde a cidade se localizava. Cruzamos muitas plantações de hortaliças, graviolas, abacates e vinhedos. Os vinhedos abastecem as destilarias de “pisco”, aguardente típica da região, que é objeto de contenda histórica entre o Chile e Peru, que reivindicam a paternidade da bebida. O “pisco sour”, espécie de caipirinha, é um dos drinques mais apreciados nos dois países.

O caminho das estrelas

O caminho das estrelas

O dia estava nublado, porém muito longe do frio que esperávamos. Atravessamos o vale e seguimos por uma estrada de chão tortuosa, coberta por areia e pedregulhos, muito escorregadia e perigosa. Pela janela da camionete víamos os vales profundos, tangenciados pela estrada. Aos poucos fomos subindo, observando a árida paisagem de chão pedregoso marrom, muitos arbustos e cactos de várias espécies.

Entre as idas e vindas da conversa, Bruno Quint nos informava sobre o clima, as características geográficas e a história da população da região. Imaginávamos La Serena como uma pequena cidade, isolada e incrustada na cordilheira. Nada disso, La Serena é a terceira maior cidade e a segunda mais antiga do Chile. Foi fundada por volta de 1544, conta com mais de 300 mil habitantes e com muito congestionamento na hora do rush.

O deserto do Atacama é bem grande e tem uma área que é metade do Estado de São Paulo. Quase não chove por lá, por isso o seu clima é um dos mais secos do mundo. Muitas vezes, na cidade, o tempo se mostra nublado, porém a 2750 metros de altura o céu se abre, limpo e azul, ideal para observações astronômicas. É uma região de atividade sismológica e, em 2015, sofreu um forte terremoto com epicentro na região de Coquimbo, a dezenas de quilômetros de La Serena, que atingiu 8.3 graus na escala Richter. O terremoto se propagou e chegou até a cidade, com menos intensidade do que foi em seu epicentro, mas com força suficiente para provocar abalos nas construções mais antigas e fazer rolarem muitas pedras na estrada. Ele não chegou a afetar os telescópios, que foram projetados para suportar abalos sísmicos, no entanto trepidou e deslocou muitos dos seus equipamentos.

A paisagem das montanhas

A paisagem das montanhas

Segundo Bruno Quint, no inverno, a temperatura cai muito e no topo de Cerro Pachón a neve se acumula a mais de um metro de altura, tornando difícil e perigosa a viagem até o topo da montanha. De vez em quando nevascas castigam o alto da montanha, tornando perigosa a estadia do pessoal que trabalha, diuturnamente, nos telescópios.

Foram quase duas horas para chegarmos ao ponto mais alto de Cerro Pachón, onde estava o SOAR. Antes de atingirmos o cume da montanha, paramos em um posto de observação que nos permitiu ver as cúpulas brilhantes dos três telescópios, em diferentes posições: SOAR, Gemini e Cerro Tololo. No horizonte se descortinava toda a cordilheira com seus picos nevados. Uma paisagem espetacular.

Observatório Interamericano de Cerro Tololo

Observatório Interamericano de Cerro Tololo

O Observatório Interamericano de Cerro Tololo, situado a uma altura de 2.200 metros, constituído de sete cúpulas, com cinco telescópios em funcionamento e apelidados de “cogumelos” foi um projeto antigo do consórcio de sete países, de 1967. Desde janeiro de 1976 opera o seu maior telescópio, Victor Blanco, com um espelho esférico de 4 metros de diâmetro.

O telescópio SOAR: um pedaço do Brasil nos Andes

O SOAR foi financiado por um consórcio: o Brasil (representado pelo CNPq) e os EUA representado pelo National Optical Astronomy Observatory (NOAO), a Universidade da Carolina do Norte (UNC) e a Universidade Estadual de Michigan (MSU). Foi inaugurado em 17 de abril de 2004 e iniciou as suas operações de coleta de dados científicos, de rotina, no segundo semestre de 2004.

O domo do telescópio SOAR

O domo do telescópio SOAR

Lá fomos apresentados ao corpo técnico, responsável pelo seu funcionamento diário, entramos na sala de controle e vimos as imagens dos objetos astronômicos, nas telas dos computadores. Enormes cabos ópticos levam os dados do telescópio ao CPU (Central Processing Unit) que são convertidos em imagens. Telescópios grandes e médios, como o SOAR, possuem “coração”, que é o seu grande espelho parabólico primário, e “mente”, que é o seu CPU.

Na entrada do do telescópio SOAR

Na entrada do do telescópio SOAR

A imagem tradicional e até romântica do astrônomo com o olho postado na ocular do telescópio não tem lugar nessas grandes e modernas máquinas de observação. Hoje, nenhum pesquisador, brasileiro ou americano, precisa viajar até eles, porque as imagens dos objetos astronômicos previstos nos projetos de pesquisa são digitalizadas e chegam até as telas dos computadores, instalados nas confortáveis salas de pesquisa.

O SOAR possui um espelho parabólico primário de 4,2 metros de diâmetro. Bruno Quint nos explicou como o telescópio foi construído para resistir a terremotos e nos mostrou os seus inúmeros instrumentos ópticos de primeira geração como espectrógrafo óptico de campo integral (IFU), imageador óptico (SOI), câmera infravermelha de alta resolução (Spartan) e o espectrógrafo para o infravermelho próximo (OSIRIS), que cumprem diferentes funções para produzirem imagens nítidas e precisas. Conta, ainda, com uma tecnologia recente que realiza correções ópticas ativa e adaptativa. O seu sistema de óptica ativa corrige as imagens devido às deformações, imperceptíveis a olho nu, sofridas pelo espelho primário devido ao desalinhamento do seu eixo focal, nos componentes dos detectores (colimadores, focalizadores, etc), devido ao seu enorme peso e às correntes de ar frio da montanha. As deformações são corrigidas por dezenas de pequenos motores hidráulicos instalados debaixo do imenso espelho. Conta, ainda, com o sistema de óptica adaptativa que se utiliza da emissão de um raio laser que sobe 7 mil metros, na direção de observação, para corrigir distorções provocadas pela turbulência da atmosfera.

Subindo até o espelho do telescópio SOAR

Subindo até o espelho do telescópio SOAR

Almoçamos, por lá, no “cassino”, que nada tem a ver com casa de jogos de azar. É o apelido de um restaurante simples que serve refeições ao pessoal que trabalha nos três telescópios: diretores, pesquisadores, engenheiros, técnicos em manutenção, etc. São dezenas de pessoas dedicadas a esta notável área de conhecimento que nos trazem as mais desconcertantes e intrigantes imagens dos fenômenos astronômicos situados nas profundezas do universo. Ficamos satisfeitos com a boa comida chilena e apreciamos muito o purê de legumes.

O "cassino" ao fundo

O “cassino” ao fundo

GEMINI: máquina para desvendar o céu do hemisfério Sul

Do SOAR é possível chegar ao Gemini Sul caminhando não mais que algumas centenas de metros. Gemini foi um ambicioso projeto americano que envolveu a construção, simultânea, de dois telescópios parecidos (daí o nome Gemini). O Gemini Sul, construído no alto de Cerro Pachón, e o Gemini Norte, no topo de um extinto vulcão Mauna Kea (no Havai), a 4.200 metros de altura. A sua envergadura é praticamente o dobro da do SOAR. Tivemos sorte. O seu diretor permitiu o nosso acesso a sua estrutura, que sustenta um gigantesco espelho parabólico de 8,1 metros de diâmetro.

Yasmin se comparando ao Gemini

Yasmin se comparando ao Gemini

É um telescópio moderno cujo funcionamento, guardado as devidas proporções, é semelhante ao do SOAR. Possui, da mesma maneira, um sistema de óptica ativa que corrige as deformações do seu espelho primário. Conta também com um Sistema Multi-Conjugado de Óptica Adaptativa (MCAO) que utiliza um laser potente e brilhante que rasga o céu de Cerro Pachón, atravessando toda atmosfera terrestre e atingindo a mesofera a 90 mil metros de altura. O laser cria uma estrela artificial que é usada como referência para corrigir o ofuscamento e os borrões das imagens que ocorrem devido às turbulências da atmosfera, que são provocadas pelas variações de temperatura, umidade, densidade, pressão e correntes de ar. O ofuscamento e os borrões ocorrem porque as ondas quase planas, no vácuo interestelar, são distorcidas ao atravessarem as diversas camadas da atmosfera. O sistema “tempo real de óptica adaptativa” calcula as correções e funciona, instantaneamente, em mini espelhos deformáveis que fazem as devidas correções.

Na plataforma do Gemini

Na plataforma do Gemini

Chegamos ao Gemini por volta de 15h, no momento em que os técnicos estavam preparando o telescópio para observação noturna. O engenheiro responsável nos mostrou a sala de controle, permitiu que subíssemos até onde estava posicionado o seu enorme espelho parabólico acoplado a um outro espelho esférico secundário menor, de 1 metro de diâmetro. Permitiu que os técnicos dessem um pequeno giro no enorme domo de uma altura aproximada de 15 andares, que pode, quando necessário, fazer um giro completo de 360 graus. Abriu as imensas janelas de ventilação para que o ar dos Andes entrasse em equilíbrio térmico com o telescópio. O delicado ritual diário de preparação leva horas até que o telescópio fique pronto para observação noturna. Da plataforma superior do telescópio pudemos ver, através de suas imensas janelas, toda a cordilheira, no entardecer. Uma visão marcante e grandiosa.

A visão da cordilheira da janela do Gemini

A visão da cordilheira da janela do Gemini

Missão cumprida, experiência vivida: voltando a La Serena

Retornamos à cidade, antes do anoitecer. Cansados, descemos cochilando e confiando na habilidade do Bruno em driblar as sinuosidades da estrada. Chegamos ao escritório do SOAR, aguardados pelo David SanMartim que, no rápido bate-papo, fez um comentário elogioso sobre a redação vencedora da Camila e da Yasmin, Disse que como membro da “comissão julgadora” não teve dificuldade em escolher a redação vencedora. Segundo ele, a redação estava tão bem elaborada que foi escolhida praticamente por unanimidade. Acentuou que nos anos anteriores não tinha sido assim. Agradecemos e nos despedimos dos dois pesquisadores que representam o Brasil no telescópio SOAR.

Resolvemos ir andando até um supermercado próximo, onde compramos algumas lembrancinhas para os colegas que colaboraram e tornaram possível a realização do concurso no Pioneiro. Jantamos e retornarmos ao hotel sob um pequeno chuvisco.

No dia seguinte, por volta das 9h, fomos conhecer o centro de La Serena. Ficamos intrigados com o comércio todo fechado e resolvemos perguntar em que horário as lojas abriam. Disseram que era somente a partir das 10h30. Bem tarde para nós e bom para os trabalhadores de lá, que podem acordar mais tarde. Andamos pelos calçadões e nos chamou atenção o fato de os carros circularem por eles. Bem, cada cidade com as suas idiossincrasias. Na rápida caminhada nos deparamos com bonitas construções históricas de estilo colonial e neo colonial.

O centro de La Serena

O centro de La Serena

O centro de La Serena

O centro de La Serena

Retornamos ao hotel, pegamos um táxi e demos uma corrida até a costa do Pacífico, a 15 minutos do centro da cidade. Paramos em um velho farol desativado, observamos o imenso e agitado oceano e percorremos uma parte da orla.

Eis o Pacífico!

Eis o Pacífico!

Em tempo, pegamos o rumo do aeroporto, embarcamos para Santiago e, em seguida, para São Paulo. Do alto do avião, com o céu aberto, deu para ver Santiago e muitas outras cidades localizadas nos inúmeros vales da cordilheira. Aos poucos fomos ganhando altura e tudo se desvaneceu nas alvas nuvens. Com a missão cumprida, usufruímos do direito a um cochilo, embalado pelas boas lembranças, ainda, frescas na cabeça.

Aterrissamos em São Paulo, meio sonolentos e nos demos conta da dura rotina que nos aguardava. Que sorte e alívio. Era quarta-feira, véspera do feriado de Corpus Christi, e pudemos esticar o descanso antes de retomarmos à labuta.

Mais fotos da viagem aqui.

Professor Oscar Kudo.

Conheça também os textos vencedores.