Uma fundação que surgiu há 84 anos, com uma escola para moças, tornou-se referência em educação básica de qualidade e formação de cidadãos aptos a ganhar o mundo

 Por Áurea Lopes e Luciana Vicária

O jardim japonês, cuidado com dedicação oriental, enche os olhos de quem passa pela rua e proporciona um agradável acolhimento a quem entra. Este é o primeiro sinal de que o Centro Educacional Pioneiro, que completa 46 anos no dia 18 de setembro, é uma escola mais do que especial. Lá dentro, a vida corre – literalmente, pelo pátio, se for hora do recreio! – para dar conta de propiciar uma educação de qualidade aos quase 800 alunos, do Ensino Infantil ao Ensino Médio.

O Pioneiro está longe de ser um colégio comum porque tem, em seu DNA, uma cultura que se destaca por valorizar saberes que abrigam desde o conhecimento de nossos ancestrais até a visão de preparação para o futuro. Fundado pela educadora japonesa Michie Akama, que chegou ao Brasil em 1930, o PIO, como é carinhosamente chamado, tem mais de 70% dos estudantes com alguma descendência de japoneses.

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Os traços dessa cultura, que preserva valores sólidos como ética, respeito pelo indivíduo e foco na coletividade, estão em todo lugar. Não apenas nos aspectos físicos, como os graciosos olhinhos puxados, ou os avisos nos murais escritos em ideogramas japoneses. Mas, principalmente, na preservação de hábitos e crenças que fazem parte da história das famílias dos alunos.

Por exemplo, quem visita a escola em dia de festa junina, se surpreende. Em parte pela culinária: as barracas mais disputadas são as de yakissoba e de guiozas! Em parte, pela organização e limpeza: cadê a sujeira? No arraial de 2017, pelo qual passou uma multidão de mais de 3.500 pessoas, bastava alguém descuidar, para outro recolher o papel no chão. Mais um bom exemplo é o Undoukai – na língua japonesa, “undô” significa esporte e movimento; “kai”, reunião. A festividade esportiva, criada nas escolas do Japão em 1880, com a proposta de confraternizar as famílias com os professores, foi realizada este ano, nas quadras o Pioneiro, com 130 participantes.

Uma característica marcante dos jovens orientais que a escola apoia e estimula é a competência para as ciências exatas. Raciocínio matemático e lógico, os estudantes do Pioneiro tiram de letra. O colégio tem as melhoras médias de matemática no Enem. O segredo? Qualidade e esforço da equipe pedagógica e a insistência no lúdico, para encantar o aluno: tem campeonato de cubo mágico, jogos eletrônicos de lógica e um material de desenho geométrico feito sob medida. Sem contar o estímulo à participação em olimpíadas, que já rendeu mais de 350 medalhas aos alunos.

Aqui se fala (também) japonês

O Pioneiro é uma das raras instituições de ensino brasileiras abertas a alunos de origem japonesa que não falam português. A escola tem cursos específicos para receber e adaptar esse público. Recentemente, jovens de uma escola do Japão vieram ao PIO para uma visita. Entre eles, o estudante Nakamura Rikuya, de 17 anos, que fez um relato emocionante: “A gente mora do outro lado do planeta e nossos costumes são muito diferentes. Mas não precisei mais do que poucos minutos para identificar o respeito mútuo que as pessoas têm entre si, aqui dentro. O respeito é um valor que não tem barreiras, é universal. E ele pode ser compreendido sem que eu saiba falar o português. Quando acontece assim, as diferenças entre nós passam a ser, na verdade, indiferenças”.

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Essa identidade não se constrói só na escola, mas também em casa. Mais do que “marcar presença”, os pais e responsáveis atuam no Pioneiro, em uma sólida parceria, seja na organização dos eventos (adivinha quem cuida das guiozas, na festa junina?), seja nos fóruns que decidem os rumos da escola. Alguns pais estão participando ativamente da construção do Projeto Político Pedagógico da escola, debatendo as propostas nas assembleias, ao lado de educadores e funcionários.

Mas nem todas as famílias do PIO pertencem à colônia japonesa. Mãe de dois alunos, a cirurgiã dentista Fabiana Correa Bueno Otani faz parte de um grupo cada vez maior de pais sem qualquer descendência oriental que escolhe o Pioneiro para matricular os filhos, simplesmente por conta da qualidade do ensino. “Sim, eles são dos poucos sem os olhinhos puxados, mas isso não tem a menor importância e não faz diferença alguma no relacionamento deles com a escola”, diz Fabiana. Ela conta que escolheu o Pioneiro justamente pela importância que a instituição dá à ética e ao respeito. “Um dos pontos que sempre destaco é que no Pioneiro as regras são claras. Lá, dois mais dois são quatro mesmo”, afirma.

Este ano, a grande vedete da escola é o novo mascote. Para criar o personagem, houve uma mobilização geral. Todos participaram, enviando sugestões, desenhos e nomes. Houve votações e debates em sala de aula. O gato da sorte maneki-neko, desenhado pelo aluno Thomas Hideaki Kubota, do 6º ano, foi o eleito pelos estudantes, com 39% dos votos. A diretora-geral da escola, Irma Akamine Hiray, conta que foi um processo muito democrático e envolvente: “A atividade mostrou o engajamento do grupo, o potencial criativo dos estudantes e o respeito pela vontade da maioria”.

Todo esse conjunto de propostas pedagógicas, metodologias e atividades curriculares alinhadas com as diretrizes para uma educação voltada às habilidades e competências do Século 21 é resultado de um trabalho colaborativo, que envolve funcionários, educadores e gestores. O Pioneiro é dirigido por um corpo de voluntários que compõem a Diretoria Executiva e o Conselho Curador. Educadores, pais de alunos e entusiastas do projeto de ensino da Fundação Michie Akama integram esses órgãos decisórios. Profissionais experientes estão na linha de frente das coordenadorias pedagógicas e das salas de aula, comprometidos em preparar os alunos para que adquiram o protagonismo de seu aprendizado. Com isso, a escola se projeta cada vez mais no cenário educacional da cidade de São Paulo, amplia suas taxas de retenção de matrícula e a presença de seus alunos nos mais cobiçados vestibulares do país. Sem dúvida, há muito a comemorar!