Questões difíceis precisam ser encaradas de frente. É assim que se prepara os estudantes não apenas para enfrentar uma situação de risco em suas vidas pessoais. Mas os ajuda a compreender o mundo onde vivem e a pensar o coletivo levando em consideração conceitos de cidadania.

Por Marília Duarte

Ter filhos adolescentes significa, sim, ter que prestar atenção em questões difíceis, incômodas, mas que precisam ser encaradas de frente. Como o problema das drogas. É fato que, cedo ou tarde, os jovens terão contato com drogas, lícitas ou ilícitas, e vão ser obrigados a tomar uma decisão: usá-las ou não usá-las. E essa não pode ser uma decisão de impulso. Ao contrário, deve ser construída, ao longo do processo educacional, em casa e na escola, com apoio dos pais e dos educadores.

Com essa proposta, foi criado, em 2005, o Programa Pioneiro Antidrogas (Propad), voltado a alunos dos níveis Ensino Fundamental II e Médio. A ideia é falar sobre drogas, fugindo dos velhos chavões: “fazem mal”, “fiquem longe delas”. Uma vez por mês, os estudantes participam de um encontro de uma hora durante o qual, sob orientação de professores, se informam e debatem sobre drogas. Para além de mostrar os malefícios da dependência, a dinâmica do encontro consiste em dar informações aos estudantes, discutir o que leva as pessoas a usar drogas.

No último encontro do programa, o foco foi a cracolândia, um problema social que ultimamente tem sido objeto de muita polêmica na sociedade. Os meninos e as meninas aprenderam sobre o crack, uma pedra feita a partir do refino da cocaína, misturado com outras substâncias. Fumada por meio de um cachimbo ou de latas adaptadas, a droga custa em torno de 2 reais – o que facilita sua aquisição por pessoas de classes econômicas mais vulneráveis.

Os jovens também estudaram sobre os efeitos causados pelo consumo de crack, como hiperatividade, euforia, insônia e intensa falta de apetite, o que faz com que seus usuários percam peso muito rápido – e daí também a razão dos usuários serem apelidados de “zumbis”. O debate em sala de aula abordou a questão como um complexo problema de saúde pública. Por exemplo: muitas pessoas que passam fome optam pelo crack para não sentirem mais fome.

Diante de tantas notícias e dos acontecimentos violentos noticiados pela mídia, foi importante contextualizar a cracolândia [a “terra” do crack], local onde nos anos 1950, 1960 vivia uma população de elite da cidade de São Paulo e, que há 27 anos, começou a reunir pessoas interessadas em comprar e vender crack, até se tornar uma espécie de reduto “livre” do consumo de drogas. Os jovens analisaram a recente ação da polícia, em uma tentativa fracassada de desfazer a cracolândia, resultando apenas na dispersão dos frequentadores por outros pontos da cidade.

Os alunos foram apoiados nas reflexões sobre como lidar com esse problema. Entre as ideias que surgiram, os jovens concluíram que, para “se curar” do vício, o usuário precisa querer, de fato, passar por um tratamento. Em um rico debate, como sugestão para ajudar os dependentes, alguns alunos sugeriram conversar com essas pessoas, para saber se elas gostariam de ir para uma clínica de reabilitação. No entanto, outros alunos rebateram essa sugestão, alegando que muitas vezes esses usuários estão “fora de si” e não teriam condições para tomar uma decisão como essa.

Esse exercício de avaliação e argumentação, a partir de fatos concretos, reais e próximos do nosso cotidiano prepara os estudantes não apenas para enfrentar uma situação em suas vidas pessoais. Mas os ajuda a compreender o mundo onde vivem e a pensar o coletivo levando em consideração os conceitos de cidadania.

* Marília Duarte é professora de ciências e integrante do Propad.