Meiko Akemi – 8ºC – 2015

Eu tinha uma vida feliz. Sim, uma vida feliz. Só fui capaz de perceber quando já era tarde demais.

Hoje, acordei, comi um pedaço de pão, me vesti e fui trabalhar, sem tempo de me despedir de minha esposa. Meu local de trabalho é uma fábrica. Me dirigi ao meu posto e passei a encaixar as peças que passavam pela esteira à minha frente; afinal, isso era tudo que eu sabia fazer.

Em determinado momento, a esteira parou. Apesar disso, meus braços e mãos continuavam realizando o movimento repetitivo que eu fazia para encaixar as peças que chegavam até mim, incessantemente.

Esperei para que a esteira voltasse a andar, mas ela manteve-se imóvel, sem demonstrar nenhum sinal de recuperação. Percebi que a máquina estava quebrada. Mal tive tempo de pensar em uma solução para o problema, pois logo em seguida fui informado de que uma nova greve se iniciara na fábrica e, sem ter escolha, retornei à minha casa.

Minha casa. Tal local não me é familiar, pois passo mais tempo na fábrica onde trabalho do que em meu próprio lar, de modo que tive de observar seu exterior por algum tempo par ter certeza de que ela era a minha. Entrei na habitação (que supus ser a minha) e me espantei: havia dois homens aguardando-me com olhares sérios e angustiados.

– Viemos dar-lhe uma notícia – disse o primeiro homem

No momento em que ouvi esta frase, comecei a suar frio: percebi que algo ruim havia acontecido.

– Sua esposa foi morta por um tiro da polícia. Ela estava próxima a uma manifestação contra as más condições de trabalho nas fábricas e foi atingida por uma bala que tinha como objetivo dispersar os manifestantes. Sentimos muito – disse o segundo homem, com um olhar de tristeza.

Senti minha pele ficar pálida e fiquei tonto ao receber a notícia. Fiquei em silêncio por um momento e, abalado, agradeci os homens que se deram ao trabalho de avisar-me sobre o acontecimento, despedindo-me e observando enquanto os dois deixavam meu lar, desaparecendo nas ruas calmas da vizinhança.

Sem pensar em nada, desabei no chão e chorei. Chorei, por muito tempo chorei. Pelo menos para mim, aquele momento pareceu uma eternidade: meu mais precioso bem havia me deixado sem que eu pudesse ao menos me despedir. O que eu faria dali em diante?

Recompus-me e sentei-me na cadeira onde sempre descansava. Em frente a ela havia outra cadeira que, por sua vez, estava vazia. Arrependia-me profundamente, pois finalmente fui capaz de ver que minha vida era perfeita, mas eu não soube aproveitá-la. Agora, nela havia um enorme buraco, de onde uma peça essencial havia sido retirada. Refleti e percebi algo que nunca havia notado: a vida é como uma máquina, ás vezes para, às vezes funciona.

Sabendo que não poderia ficar parado, comecei a arrumar as coisas de minha esposa colocando-as em um canto da casa cuidadosamente. O que eu faria com seus pertences? Não sabia. Será que a greve da fábrica duraria muito tempo? Também não fazia ideia. Eu queria desistir de tudo, mas sabia que minha esposa desejaria que eu continuasse a viver e me esforçar mesmo depois de tão trágico acontecimento; afinal, ela sempre me apoiara e incentivara em todas as situações. O que eu deveria fazer, então, para que minha vida voltasse a funcionar?

Sem rumo, saí de casa e, andando de maneira distraída pelas ruas, ouvi um som: era o choro de uma criança. Corri em direção ao choro e me deparei com uma garota de belos olhos azuis. Ela estava suja, ferida e parecia estar sem alimento há algum tempo. Olhando em minha direção com os olhos cheios de lágrimas, ela implorou:

– Por favor, ajude-me! Há dias não como nada e minha família abandonou-me! Por favor, dê-me ao menos um pedaço de pão!

Ao ouvir tais palavras, fiquei comovido; aquela criança inocente, que mal tinha culpa de seu destino, estava sofrendo e precisava de ajuda. Eu sabia o que deveria fazer: convidei-a até minha casa e dei-lhe alimento e as antigas roupas de minha esposa (as quais não me teriam nenhuma utilidade). Perguntei à garota sobre o porquê de ela ter sido abandonada, ao que ela me respondeu:

– Meus pais diziam que eu era um fardo e que eles precisavam de dinheiro. Eu não entendia muito bem o que eles queriam dizer, mas sabia que não me desejavam junto a eles. Há algumas semanas atrás, eles pediram para que eu os esperasse em frente à padaria e disseram que voltariam logo. Eu esperei por dois dias, mas meus pais não voltaram. Com frio e com fome, eu desesperadamente pedia alimento às pessoas que passavam por mim, mas dificilmente recebia algo.

Fiquei emocionado ao ouvir sua história. Ela havia passado por algo horrível, mas mesmo assim seguia em frente corajosamente. Perguntei, então, se ela gostaria de viver comigo, ao que ela, chorando de alegria, respondeu que sim. Senti que agora minha vida estava um pouco menos vazia.

Dias depois, a greve finalmente acabou e eu voltei ao trabalho. Lembrei-me de despedir-me de Anne antes de sair de casa e, chegando na fábrica, verifiquei que a máquina que parara de funcionar dias atrás havia sido consertada. Assim como a máquina, minha vida também estava sendo, aos poucos, consertada.

Suspirando com alegria, voltei a mais um dia de trabalho. Eu sabia que todos os dias, quando voltasse para casa, teria alguém me esperando com um sorriso no rosto. Me pergunto se minha esposa estaria orgulhosa de mim, observando-me de um lugar calmo e longínquo…

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Descrição da atividade

Essa narrativa faz parte do projeto Microcontos Escolares e surgiu a partir do microconto: “A vida é como uma máquina, às vezes para, às vezes funciona” de Livia Tozaki e Melissa Tai.